O Gato leu: Demolidor – A Queda de Murdock

Demolidor – A Queda de Murdock – Frank Miller e David Mazzucchelli
Editora: Salvat
Ano: 2013
Páginas: 192

Eu acho o Demolidor um dos melhores personagens da Marvel, ele é muito complexo e humano em suas atitudes. E é exatamente esse caráter humano que será o foco da graphic novel Demolidor – A Queda de Murdock.

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Na trama, Wilson Fisk , o Rei do Crime,  tem um império criminoso que seria impossível de ser contido não fosse a interferência do vigilante Demolidor, alter ego do advogado Matt Murdock. As lutas entre o Homem Sem Medo e o Rei são constantes no bairro de Hell’s Kitchen.

Certo Dia, Fisk recebe uma informação revelando a identidade secreta do herói. Para ter certeza, ele arquiteta um plano para ir afetando a vida de Murdock aos poucos, sem que este se dê conta de que seu tapete está sendo puxado.

A campanha de vingança de Fisk é contra o homem com a máscara, mas para derrubá-lo ele percebe que precisa atingir a pessoa por detrás dela. Seu objetivo é não apenas destruir o Homem sem Medo, mas todos ao seu redor. O clima não muito amigável da história se dá por seu autor, Frank Miller, que é conhecido por sua linguagem sombria.

Muitas coisas na história me lembraram a primeira temporada de Jessica Jones, série da Marvel na Netflix. Pode não ser nada, mas podem ser referências, uma vez que ambos os personagens aparecem situados no mesmo contexto muitas vezes. Ainda não assisti a segunda temporada da série do Demolidor, mas a minha irmã que viu, disse que há várias coisas que indicam que na terceira temporada veremos uma história tipo A Queda de Murdock.

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Cheio de subtramas, com um final tenso e questionador, além de surpreendente, esse encadernado com capa dura reúne as edições 227 a 233 de Daredevil. Em seus extras temos capas das revista originais norte-americanas, biografias de Miller e Mazzucchelli, a história da origem do personagem e uma galeria com diversas artes do personagem interpretadas  ao longo dos anos, pelos diferentes artistas que o desenharam.

O grande destaque dessa história é o fato dela focar no Matt, na pessoa. Um ser humano com defeitos e que apesar do bom coração pode ser arrogante, prepotente e ignorar o que acontece ao seu redor.

Se trair e ser traído, não há nada mais humano do que isso.

Sejamos todas amigas

Com esta apropriação da frase da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie venho refeletir sobre algo que me incomoda muito.

Ultimamente ando ouvindo e lendo frases como: “péssimo dia para as inimigas”, “sambando na cara das inimigas”, “bebendo as lágrimas das inimigas” e coisas do tipo. Sempre achei isso meio estranho, parece que essas inimigas são seres fantasiosos. É meio irreal para mim.

Não que a gente não tenha inimigos. Na vida, assim como construímos fortes laços de empatia, o contrario também acontece. Só que quando se usa uma frase como as que citei acima parece que todas as mulheres são opostas à você e devem ser combatidas. Vocês estão me entendendo?

Por que nós mulheres temos que estar sempre umas contra as outras?

Dentro desta sociedade machista em que vivemos somos estimuladas a competir. Ser a mais bonita, a mais magra, a mais rica, a com a melhor família. Uma coisa que percebi desde que comecei a estudar mais sobre o feminismo foi a importância de estarmos juntas. A rivalidade entre as mulheres fortalece o patriarcado e tira o foco da luta por igualdade.

SORORIDADE é a união e aliança entre mulheres, tendo como base a empatia e companheirismo.

Eu adoro essa palavra, mesmo tendo muitos debates sobre seu conceito e uso, mas eu a considero muito forte. É importante essa união. Lembro de conversas que tive com outras mulheres em que nós relatamos casos de assedio, medos e espectativas para o futuro. É triste ver como os dois primeiros são assuntos que dificilmente falamos mas que quando ouvimos, percebemos que todas temos uma história em comum.

A inimiga  é a opressão!

Eu gosto muito de uma série de comédia chamada Mom, que conta a história de  uma relação bastante complicada entre mãe e filha. Nela, Christy é uma garçonete que está há quatro meses nos alcoólicos anônimos tentando ser uma mãe melhor e superar seu histórico de escolhas questionáveis. Sua sobriedade é colocada em prova quando sua mãe, Bonnie, reaparece. A série segue os dramas dessas mulheres que tiveram que fazer coisas das quais não se orgulham e tem que lidar com as consequências.
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A questão do alcoolismo mostra como tentamos encontrar uma válvula de escape para as pressões da vida. Num grupo de mulheres fragilizadas, uma encontrou na outra a semelhança com o seu medo e sua própria história. Dentro dessa metáfora acho incrível mostrar o quanto precisamos ouvir umas às outras.
A Luisa do blog La Luisité fez um vídeo maravilhoso sobre isso. É muito bom para refletir sobre o quanto a rivalidade feminina está enraizada em nós, desde a nossa infância. Rever nossas atitudes é não reproduzir um discurso de ódio contra a outra que nada nos fez de mal e não condenar alguém pelo simples fato de existir.

Sejamos todas amigas!

O Gato leu: A Procura de Vida Inteligente

A Procura de Vida Inteligente – Victor Allenspach
Editora: Edição do autor
Ano: 2015
Páginas: 196

Já disse por aqui que, pra mim, as resenhas mais difíceis de se fazer são aquelas dos livros que gostei muito de ler. Por isso, será complicado encontrar a objetividade necessária para a resenha de A Procura de Vida Inteligente, que considero umas das melhores leituras que fiz até agora neste ano.

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Quando o autor Victor Allenspach entrou em contato comigo dizendo que queria me enviar um exemplar para leitura eu fiquei curiosa. Ele me contou que seu livro tem forte influencia de Douglas Adams e me lembrei de que eu não me apaixonei pelo O Guia do Mochileiro das Galáxias, primeiro livro da série escrita por Adams e único que li até hoje. Algo que tinha essa referência poderia ser uma leitura que não me agradasse.

Ter opinião sobre as coisas é algo confuso, um mistério subjetivo. (Pág. 07)

Isso não aconteceu. Encontro referencias à escrita do autor, mas Victor tem uma narrativa própria. A Procura de Vida Inteligente é um livro com uma história de ficção científica muito acessível. Ainda que a forma de narrar de maneira não linear possa não agradar todos, ela é um dos pontos fortes dessa história.

É um livro com uma escrita sarcástica, irônica e muitas vezes agressiva por nos dizer coisas que não queremos ouvir e não queremos aceitar. Parece que a leitura não se encerra na ultima página, uma nova reflexão surge a cada nova experiência que vivemos e as palavras adquirem outros significados.

“A dor desperta suas emoções, e sente-se humano novamente. Não é mais controlado, e por isso se revolta, mas ironicamente a responsabilidade por suas próprias decisões desperta a sua razão. (Pág. 36)

Na trama, sem motivo ou explicação, uma mensagem surge diante de todos os seres do universo. O fim dos tempos é anunciado. Esta é uma mensagem tão carregada de significado para Boris.

Boris é um robô sem memória. Ele não nasceu. Também não foi criado ou educado. Como tantos outros, ele apenas foi produzido e programado. Assim, ele pode não morrer da maneira como a raça humana entende, mas ele está sempre diante do risco da reciclagem e do fim que esta representa. Ser ultrapassado e considerado inútil é uma realidade que se torna comum até para aqueles feitos de partes mecânicas.

Em que isso difere da própria existência humana? Em nada.

Num instante tudo faz sentido. Não o universo, a física ou as questões existenciais, mas tudo o que precisa fazer. (Pág. 105)

De figurante a protagonista, séculos se passam à espera de uma oportunidade. Na busca por liberdade, Boris sequer imagina que já a alcançou a muito tempo, mas optou por uma existência cheia de limites e algum significado.

A necessidade de dizer alguma coisa é bastante estranha, para não dizer humana. (Pág. 160)

Através desse robô vemos uma reflexão sobre a humanidade. Criação, leis, relacionamentos, perdas, vida e morte. A iminência de um destino que foi calculado e que não pode ser evitado. Boris somos nós nesse ambiente hostil que é a vida.

O Gato viu: Capitão América 3 – Guerra Civil

Eu não sei bem o que dizer de Capitão América 3 – Guerra Civil. Quem já acompanha o blog a mais tempo sabe que eu li a graphic novel homônima e estava com as expectativas bem baixas para o filme.

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O filme não tem quase nada do quadrinho, então decidi encarar como uma obra solta e não como uma adaptação. Isso é o melhor a se fazer, levando em conta que na história original estão presentes personagens como os X-Men e o Quarteto Fantástico, fora outros super-heróis “avulsos” de grande importância que não estão no filme. Já foi um parto conseguirem trazer o Homem-Aranha, imagina os X-Men?

Ponderado tudo isso, o que eu tenho a dizer sobre o filme?

Eu gostei muito, muito mesmo. Capitão América 3 – Guerra Civil é bom, inclusive superior a Vingadores 2 – Era de Ultron.

A trama foi reformulada mas segue a base das “consequências dos atos dos super-heróis” como os trailers que saíram já mostravam. No filme vemos Steve Rogers (Chris Evans) liderando o recém-formado time de Vingadores com Viúva Negra (Scarlett Johansson), Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), Visão (Paul Bettany), Falcão (Anthony Mackie) e Máquina de Combate (Don Cheadle) em suas novas missões, tal como deu a entender no final de Vingadores 2. Porém, um novo incidente envolvendo os Vingadores resulta num dano colateral, diante de tantas situações que estão fugindo do controle, a pressão política se levanta.

Os Vingadores são uma instituição privada que não respondem a ninguém e agem em qualquer país sem se importar com a soberania nacional. Os governos e a ONU querem, assim, instaurar um sistema para supervisionar e dirigir a equipe. Nesse momento já vemos T’Challa (Chadwick Boseman) inserido na história. Este é o guerreiro Pantera Negra, mas que também é príncipe do reino de Wakanda e está querendo uma posição definitiva dos Vingadores sobre seus atos.

Alguns heróis já estão abalados pelos acontecimentos e acham que é hora de prestar contas e tentar reconquistar a confiança da população mundial, nesse grupo está Tony Stark (Robert Downey Jr.). Outro grupo, liderado por Steve, quer que os Vingadores permaneçam livres para defender a humanidade sem a interferência do governo, pois acreditam que podem se tornar um tipo de exercito nas mãos dos políticos e não desejam isso.

É uma situação muito complicada, de um lado a liberdade e de outro a vida em sociedade. O  filósofo romano Cícero já dizia “todos somos escravos das leis para que possamos ser livres”. O que traz uma grande mudança nessa trama é a presença do Soldado Invernal (Sebastian Stan), que era Bucky, o amigo de infância de Steve que se tornou uma arma da Hidra.

Sabemos que quando se trata do Bucky, o Steve perde totalmente a noção. Temos, então, um Capitão América menos idealista e mais protetor e passional, o foco de sua luta muda. Ao mesmo tempo que Tony Stark parece se prender as amarras da burocracia politica, mas também apresenta uma visão muito mais aberta a realidade que os Vingadores estão enfrentando.

Não dá pra escolher um lado, pois ambos estão certos se você observar com calma. Capitão América 3 – Guerra Civil se tornou assim, um dos meus filmes favoritos da Marvel. Pode não ser uma boa adaptação, mas é uma história com grande potencial de reflexão. Dá pra relacionar com as situações politicas e econômicas que vemos nos jornais diariamente e perceber que a ficção não é algo tão distante. Embalado com muita ação (muita mesmo), momentos dramáticos e uma premissa madura, este é um filme que você deve assistir.

PS: Tom Holland cumpre seu papel como Peter Parker/Homem-Aranha. Ele é inserido na trama de uma maneira tão leve que somos conquistados por seu carisma. Acho que este mais jovem Homem-Aranha será o que unirá os fãs de verdade. Sendo assim, eu amo o Homem-Aranha e vou protegê-lo.

O Gato leu: Quissama – O Império dos capoeiras

Quissama – O Império dos capoeiras – Maicon Tenfen
Editora: Biruta
Ano: 2014
Páginas: 308

Eu fico muito feliz de começar uma parceria assim. Quando fiz a solicitação desse livro para a Editora Biruta tinha uma boa expectativa, que fui incrivelmente superada! Não foi a toa que em 2015 ele foi Finalista do Prêmio Jabuti 2015, na categoria Juvenil.

Quissama – O Império dos capoeiras é o tipo de livro que eu ficaria muito feliz de ter lido quando era adolescente. Literatura nacional de qualidade, com uma boa dose de crítica social embalada por muita aventura. Hoje, já adulta, o livro ainda conseguiu surtir todo esse efeito em mim.

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A trama se passa no Rio de Janeiro, em dezembro de 1868. O moleque Vitorino Quissama fugiu da senzala para procurar sua mãe que desapareceu misteriosamente. Ele recorre ao viajante inglês Daniel Woodruff, ex‑agente da Scotland Yard em busca de ajuda nessa missão. Os feitos de Daniel como detetive são conhecidos por todos na cidade, dos senhores até os escravos em suas senzalas.

Daniel se recusa, está cansado do Rio, mas é sugado para dentro dessa situação que se mostra muito maior que o desaparecimento da mãe de Vitorino. Uma conspiração para mudar a história do país estava acontecendo. Vitorino e Daniel se vêem enfrentando os perigos e as injustiças dessa sociedade escravocrata em busca de respostas que se apresentam cada vez mais assustadoras.

Nesse livro, todos os personagens são bem feitos. Vitorino é moleque, um menino ainda guiado somente pelas emoções, mas é dele que vem a inspiração para a luta. Daniel, o narrador da história, não é um Sherlock Holmes da vida, ele tem bom faro, mas não é do tipo que desvenda o caso de primeira  e isso torna a história muito mais crível. Temos um vilão, intitulado Alemão, que é bem assustador e cumpre seu papel, apesar de que nessa trama a sociedade toda tem culpa. Não posso deixar de destacar Miguelzinho da Viúva, amigo português de Daniel, que é carismático e conquista o nosso coração. A participação do escritor José de Alencar, então ministro da Justiça na época, também deixa a história muito mais interessante.

Maicon Tenfen brinca com nossa cabeça ao dizer que o livro é baseado nos manuscritos de Daniel, eu passei a leitura toda imaginando tudo acontecendo de verdade pelas ruas do Rio. Esse recurso é bem interessante e dá um ritmo diferente à história. Eu gostei muito. As ilustrações de Rubens Belli também são incríveis.

Em entrevista ao blog Desbravador de Mundos, o autor disse que Quissama – O Império dos capoeiras terá continuações e foi planejado para ser uma trilogia, passando pela Guerra do Paraguai e retornando ao Rio de Janeiro. Estou louca para ler sobre as novas aventuras dos personagens.

Esse livro é incrível e vale muito a pena conferir!