O Gato leu: O Demonologista

O Demonologista – Andrew Pyper
Editora: DarkSide Books
Ano: 2015
Páginas: 328
Compre: Amazon

Acho bem triste quando não gosto de um livro que muitos dos meus amigos amam. Queria partilhar da empolgação deles nas conversas, mas fico sozinha na minha frustração. Isso aconteceu com O Demonologista.

Publicação DarkSide preferida da minha irmã, tema de várias conversas e até de um desafio no clube do livro que participo, a obra de Andrew Piper me deixou cansada e atrasou toda a minha fila de leituras.

Não que o livro não seja bom, ao contrário, ele é muito inteligente, além de se relacionar o tempo todo com o clássico Paraíso Perdido, de John Milton. A narrativa arrastada e, principalmente, o meu não envolvimento com o protagonista, me fizeram não amar a leitura.

Na trama, acompanhamos David Ullman, renomado professor da Universidade de Columbia, especializado na figura literária do Diabo – principalmente na obra-prima de John Milton, Paraíso Perdido. Como um acadêmico, para ele o Anjo Caído é apenas um ser mitológico, uma representação que deve ser destrinchada em todas as suas metáforas de forma analítica e cética.

Minha justificativa para essas evidentes contradições é que há coisas que tem um significado, cultural, mesmo sem existir. O Diabo, anjos. Paraíso. Inferno. Eles são parte da nossa vida mesmo que nunca tenhamos visto, e nunca vejamos, ou tocado nelas, provando que elas são reais. (Pág. 19)

Ao aceitar um convite para testemunhar um suposto fenômeno sobrenatural em Veneza, David começa a ter motivos pessoais para mudar de opinião. Algo que nem passava pela sua cabeça descrente que só concordou com a oferta por causa do pagamento e das suas vantagens como, por exemplo, uma boa desculpa para tirar férias na Itália com sua filha, Tess, de 12 anos. A viagem que se mostrava ser mais lazer do que trabalho se transformou em uma jornada aos recantos mais sombrios da alma.

De volta aos EUA, correndo contra o tempo, David precisa seguir nas estradas do país e decifrar pistas escondidas no livro de Milton e usar tudo o que aprendeu para enfrentar O Inominável e salvar sua filha do Inferno.

Algumas vezes as pessoas fecham a porta porque estão tentando encontrar uma maneira de você bater nela. (Pág. 43)

Acho que foi o Teco do canal Miolos Fritos que disse que O Demonologista é quando “Stephen King encontra Dan Brown”. Tem um quê disso mesmo. A viagem para Veneza e a questão dos símbolos religiosos é bem a cara das aventuras de Robert Langdon, personagem de Inferno e outros livros de Brown; já a paisagem interiorana dos Estados Unidos somada ao sobrenatural é marca registrada do King.

O Demonologista nos apresenta a questão da não-existência, de uma vida ainda que promissora e próspera aos olhos dos outros, mas que não tem propósito algum para aquele que a vive. Repetição, melancolia, caminhos sociais, ausência de sentimentos. Me lembrou um pouco o livro Putrefação, do autor paraense Andrei Simões, que aborda isso no derradeiro momento da vida de seu protagonista.

A experiência demoníaca é a única verdadeiramente universal de todas as experiências religiosas do homem. (Pág. 199)

David e sua filha Tess não chamaram a minha atenção, foi Elaine O’Brien, melhor amiga do professor, que me fez seguir lendo o livro. O’Brien é uma mulher inteligente e independente. Acadêmica como David, tem sempre um olhar analítico e rápido. Ela nos mostra força e vulnerabilidade ao enfrentar sua própria jornada de incertezas e provações.

Os diálogos de David com Elaine foram as melhores partes da história para mim, pois construíam linhas de pensamento e investigação muito mais interessantes que os devaneios solos do protagonista.

Estou aqui por minhas próprias razoes. Então, quanto mais tempo você passar se preocupando comigo em vez de manter  a sua mente focada no assunto em questão, mais puta da vida eu vou ficar. (Pág. 207)

O Demonologista não me encantou, mas como disse no inicio do post, ele foi instigante para muitos outros leitores. Dito isso, não deixe de ler, formar a sua opinião e voltar aqui nos comentários para me contar sobre ela, ok? Enquanto isso, pretendo dar mais uma chance ao autor e logo lerei seu outro livro, Os Condenados.

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O Gato leu: Nossa Senhora do Nilo

Nossa Senhora do Nilo – Scholastique Mukasonga
Editora: Nós
Ano: 2017
Páginas: 270
Compre: Amazon

Quando li a sinopse de Nossa Senhora do Nilo me deparei com um fato triste: o quanto nós desconhecemos a história da África. Sabemos sobre as grandes guerras mundiais, os conflitos separatistas no norte da Europa, os atentados nos Estados Unidos, mas sobre a realidade africana ignoramos quase tudo.

Lembro de estudar o conflito entre hutus e tutsis na época do vestibular. Uma passagem rápida durante a aula de geopolítica, alguns nomes gravados na memória e nada mais durante anos.

Resenha do livro Nossa Senhora do Nilo - Blog: GatoQueFlutua - Foto: Debb Cabral

Ironicamente foi uma obra de ficção que me trouxe de encontro à esta triste realidade.

A história se passa no Liceu Nossa Senhora do Nilo, uma escola para meninas, situada no alto das montanhas da bacia do Congo e do Nilo, em Ruanda. Este lugar aplica rigorosamente um sistema de cotas étnicas que limita a 10% o número de alunas da etnia tutsis. Vemos aí o controle do acesso à educação como uma forma de controle social. Em Nossa Senhora do Nilo o Liceu é também um personagem dessa história, há uma aura sobre este lugar acessível somente para poucos.

A cota funciona assim: de vinte alunas, duas são tutsis. Por causa delas, tenho amigas que são ruandesas de verdade, do povo majoritário, do povo da enxada, que não conseguiram vaga na escola secundaria. Meu pai vive repetindo que um dia a gente tem que se livrar dessas cotas, foi uma história inventada pelos belgas! (Pág.34)

Quando os líderes do poder hutu tomam conta do local, o universo fechado em que têm de viver as alunas torna-se o teatro de lutas políticas e de incitações ao crime racial. As brigas entre as adolescentes são o reflexo de toda uma tensão que existe na sociedade ruandesa. As meninas já crescem repetindo os preconceitos e ideologismos de seus pais, um ciclo opressivo social e étnico. Além disso, há uma perseguição implacável a uma moral que chega a ser opressiva de tão absurda.

Os conflitos são um prelúdio ao massacre ruandês que aconteceria tempos depois. Em Nossa Senhora do Nilo, Scholastique Mukasonga, sobrevivente do massacre, conta as experiências-limites pelas quais passaram as jovens do colégio, numa narrativa pungente que encantou o mundo. A autora, que foi destaque na FLIP 2017, apresenta esse relato de uma maneira simples, como uma história a ser compartilhada.

– Você não acha perigoso? Você sabe o que esses brancos fazem com as moças que eles atraem para as suas casas. Os brancos acham que podem fazer tudo aqui, que podem fazer até o que é proibido na terra deles. (Pág. 74)

Há aventuras vividas pelas personagens que são surreais e, até mesmo, perigosas. Isso mostra a fragilidade e a ingenuidade dessas meninas, que são vistas apenas como as futuras boas esposas de homens poderosos. Uma educação sem informação é algo triste, como pude observar na questão da menstruação. O desconhecimento do próprio corpo na área da biologia está ao lado da visão do pecado pregada pelos religiosos locais.

– Você sabe que não devemos falar sobre esse assunto. As mocinhas não entendem nada do que acontece com elas, acham que são malditas. Não sei se era assim antes dos europeus chegarem, mas os missionários só pioraram as coisas. Nossas mães não explicam nada, como diriam os professores, é um tema tabu. (Pág. 99).

Nossa Senhora do Nilo é um livro comovente. Ao mesmo tempo em que ri das conversas das adolescentes, não consegui deixar de me preocupar com a segurança delas, de suas famílias, de seu povo, de seu país.

O blog Achados & Lidos foi quem me mandou este livro como presente. Ele realizou um Clube do Livro no qual houve uma leitura coletiva da obra. Os debates podem ser encontrados nos posts do projeto.

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O Gato leu: Mr. Mercedes

Mr. Mercedes – Stephen King
Editora: Suma de Letras
Ano: 2016
Páginas: 400
Compre: Amazon

Tenho muito que agradecer a Zona Morta por me tirar da desilusão de ler Stephen King provocada por O Iluminado. Me apaixonei pela escrita do autor, pretendo ler o máximo possível das suas produções e, quem sabe, dar uma segunda chance ao livro que não me cativou.

Mr. Mercedes era o livro que eu queria ler logo que soube do seu lançamento, pois King estava se aventurando na literatura policial em uma trilogia de livros que funcionam individual e coletivamente.

A história começa quando centenas de pessoas desempregadas madrugam na fila para conseguir vaga em uma feira de empregos. A esperança de uma oportunidade e de um futuro melhor passa longe do que lhes é reservado. Sem qualquer aviso, um motorista solitário irrompe no meio da multidão em um Mercedes roubado, atropelando os inocentes. Poderia até parecer um acidente, talvez obra de algum bêbado, mas isso não está na mente do piloto que dá a ré e volta a atropelá-los de propósito. O motorista foge deixando para trás oito pessoas mortas e quinze feridos.

O “Assassino do Mercedes”, como é chamado, assombra o policial aposentado Bill Hodges. Foi um caso deixado sem solução. Tudo muda quando ele recebe uma carta enlouquecida do criminoso. O Mr. Mercedes planeja matar mais e espreita o detetive sem levantar suspeitas. Hodges acorda de sua deprimente e vaga aposentadoria, empenhado em evitar outra tragédia.

O Mr. Mercedes quer que ele cometa suicídio. Hodges se pergunta o que o homem acharia se descobrisse que acabou dando a esse ex-Cavaleiros do Distintivo e das Armas em particular um motivo para viver. Ao menos por um tempo. (Pág. 35)

Mas King não nos deixa às escuras para saber quem é o assassino. Ele nos apresenta de imediato Brady Hartfield, que vive com sua mãe alcoólatra. Brady adorou a sensação de morte sob as rodas da Mercedes e quer sentir aquilo novamente.

Para encontrar o criminoso Hodges terá o apoio de aliados altamente improváveis que irão correr contra o tempo, porque na próxima missão de Brady, se for bem sucedido, vai matar ou mutilar milhares.

Ele pode ser culpado por atacar o mundo que o fez ser como é?

Brady acha que não. (Pág. 292)

Eu devorei este livro, fiquei viciada na leitura e só pensava em como essa história iria se desenrolar. King tem o poder de criar personagens tão criveis e humanos quanto nós. Ele nos faz torcer por eles como torcemos para que as coisas melhorem para nós também. Tudo isso para nos roubar esses personagens, deixando-nos desolados diante da vida e da crueldade humana.

O primeiro capítulo me deixou com um aperto no peito, uma vontade de chorar e a incerteza se a leitura iria continuar. Tudo isso em uma parte da história que tem seu desfecho já informado na sinopse do livro.

King faz referências a outras obras suas dentro da trama. Notar essas referências mostra o quanto que elas já foram incorporadas a nossa memória cultural.

Agora é seguir em frente e ler os próximos livros desta trilogia alucinante!

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O Gato leu: Simon vs. a Agenda Homo Sapiens

Simon vs. a Agenda Homo Sapiens – Becky Albertalli
Editora: Intrínseca
Ano: 2016
Páginas: 272
Compre: Amazon

Eu já terminei a leitura de Simon vs. a Agenda Homo Sapiens há mais de um mês, mas só agora tive tempo para voltar a postar aqui no blog. Queria muito vir falar com vocês sobre este livro amorzinho.

Não sou uma pessoa que costuma ler romances (no sentido de histórias de amor), prefiro livros que abordam temáticas pesadas ou sociais, mas já notei que quando se trata de ver um casal acontecer minha experiência é muito melhor no gênero young adult. Os Y.A.s ou jovens-adultos são livros realizados para pessoas entre 15 e 25 anos, leitores em transição de gostos. O que mais me interessa nesse tipo de história é que elas trazem (pelo menos as que li) algo mais social, uma reflexão sobre temas atuais. Os conflitos tipicamente adolescentes vem acompanhados de um olhar mais acurado sobre a época em que vivem. No caso de Simon vs. a Agenda Homo Sapiens o debate e a história se dão em torno da homossexualidade do rapaz.

Você já se sentiu preso dentro de você mesmo? (Pág. 56)

O protagonista da trama tem dezesseis anos e é gay, mas ninguém sabe disso. Sair ou não do armário é um drama que ele prefere deixar para depois, pois acha muito complicada a ideia de anunciar ao mundo sua sexualidade. Nenhum hétero precisa se “assumir”, pois nos foi social e culturalmente construída a ideia de que isso era o “normal” e o “padrão”. Esta ideia só complica a vida de pessoas como Simon, que só quer viver a vida sem ter que compartilhar com o mundo o seu aspecto mais intimo.

Porém, isso tudo muda quando Martin, o bobão da escola, descobre uma troca de e-mails entre Simon e um garoto misterioso que se identifica como Blue e que a cada dia faz o coração de Simon bater mais forte. Martin começa a chantageá-lo, e, se Simon não ceder, seu segredo será do conhecimento de todos. Além disso, Blue pode se afastar com medo de ser exposto também.

Acho que estou ficando meio cansado de tudo. Estou tentando não deixar que me afete. Eu não devia ligar se as pessoas idiotas me chamam de uma palavra idiota e não devia ligar para o que as pessoas pensam de mim. Mas sempre ligo. (Pág. 194)

Simon é adolescente avesso a mudanças que precisará encontrar uma forma de sair de sua zona de conforto e dar uma chance à felicidade ao lado do menino mais confuso e encantador que ele já conheceu.

Eu comecei a leitura detestando o Simon pois achava ele muito “reclamão”, mas depois da minha irmã me lembrar que todo adolescente é assim mesmo, passei a enxergar a história da perspectiva do protagonista. O resultado foi apaixonante. Dá vontade de ser amiga dele, pois a narrativa trata questões delicadas com naturalidade e bom humor. Ela nos mostra a importância dos círculos de afeto e proteção da nossa vida, sejam eles a família, os amigos da escola ou alguém do outro lado da tela do computador. Nenhum obstáculo é impossível de se atravessar quando se tem a mão de alguém para ajudar.

Bram estava certo: as pessoas são como casas de quartos grandes e janelas pequenas. E talvez seja mesmo uma coisa boa que a gente nunca pare de surpreender os outros. (Pág. 257)

Simon vs. a Agenda Homo Sapiens explora a difícil tarefa que é amadurecer e as mudanças e os dilemas pelos quais todos nós, adolescentes ou não, precisamos enfrentar para nos encontrarmos. É um livro para todas as idades, para todos aqueles que já se encontraram perdidos com um grande dilema na vida.

Vale muito a pena conferir!

P.S.: Eu adivinhei quem era o Blue muito fácil e ao chegar no final da história fiquei feliz, pois meu palpite se saiu muito melhor do que eu imaginava.

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O Gato leu: Arquivos Serial Killers: Louco ou Cruel?

Arquivos Serial Killers: Louco ou Cruel? – Ilana Casoy
Editora: DarkSide
Ano: 2014
Páginas: 360
Compre: Amazon

A maldade e a violência têm uma origem na insanidade ou são totalmente frutos da consciência humana? O livro Arquivos Serial Killers: Louco ou Cruel? da DarkSide Books nos traz essa reflexão a todo o momento. Os assassinos em série mais famosos do mundo estão reunidos aqui pela renomada criminalista brasileira, Ilana Casoy. 

Antes de detalhar os crimes de cada um, Casoy nos explica o que é um serial killer, quais são seus ciclos, aspectos gerais, psicológicos, características e o modo como eles enxergam suas vitimas. Além disso, ela derruba alguns mitos que existem acerca do tema e dessas pessoas. A autora destaca alguns métodos de investigação e, acima de tudo, aponta que esses criminosos não são monstros, como algumas pessoas costumam se referir, eles são exemplares da nossa sociedade.

Resenha do livro Serial Killers - Louco ou Cruel?, publicada no blog GatoQueFlutua

Para um crime ser solucionado, tanto a medicina forense quanto a psicologia jurídica devem ser utilizadas. Quanto mais interação entre os profissionais das duas áreas, mais chances tem a policia de encontrar e capturar os serial killers. (Pág. 34).

Clara e objetiva, Ilana nos apresenta crimes chocantes e extremamente violentos. São 16 casos que marcaram o século XX, como Aileen Wuornos, Albert Fish, Andrei Chikatilo, Ed Gein, Jeffrey Dahmer, Ted Bundy e o Zodíaco. Ela documenta os fatos em uma forma de narrar tão singular que me lembrou uma escrita de ficção, feita para manter o leitor atento e interessado. A cada caso, um novo clímax é construído.

Assassinos em série, enquanto ainda não descobertos, escalam na violência, sentindo-se cada vez mais confortáveis e com a autoconfiança estimulada a cada dia que passam sem ser suspeitos. (Pág. 240)

Arquivos Serial Killers: Louco ou Cruel? disseca o universo da criminalística e nos ajuda a enxergar o quanto que a tecnologia, a cada evolução, tem sido uma aliada na hora de solucionar os crimes. O DNA, por exemplo, hoje é algo comum e que até os leigos conseguem entender a sua eficacia, mas ele é uma tecnologia muito recente. Existem casos em que, se houvesse a evidência do DNA na época, teria outro resultado.

Recomendo!

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