O Gato leu: O Quarto Vermelho

O Quarto Vermelho – Nicci French
Editora: Record
Ano: 2007
Páginas: 448
Compre: Amazon| Livraria da Travessa | Saraiva

Já fazia um bom tempo que eu tinha este livro na minha estante. Comprei porque estava barato e porque era uma história com um maníaco assassino, duas qualidades que admiro em um livro, rs.

Não sabia nada sobre ele ou sobre sua autora. Descobri depois  que  Nicci French é um pseudónimo literário de Nicci Gerard e Sean French, um casal que escreve junto. Bacana, né? Um de seus livros até deu origem a um filme.

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O Quarto Vermelho foi um livro que me surpreendeu muito. No Skoob ele não está tão bem avaliado, mas acho que é por conta da escrita arrastada. De fato é uma história que vai se desenrolando de maneira bem lenta e isso pode cansar.

Na trama, acompanhamos a psiquiatra criminal Kit Quinn, que atua como consultora da policia de Londres. Ela está sempre tem que lidar com inconsciente dos suspeitos e dos cruéis assassinos. Um desses suspeitos é Michael Doll, alguém que ela já conhece e que a marcou profundamente no passado, deixando sequelas na sua auto-estima e fazendo com que muitos (e ela mesma) questionem sua profissão e atuação.

Eu queria parecer relaxada e acessível, mas ao mesmo tempo profissional. Eu era a médica, uma pessoa acessível, mas não uma amiga. (Pág. 53)

Uma menina de rua foi morta às margens de um canal. Doll é o principal suspeito e Kit é chamada para sondá-lo. Mergulhamos na vida da psiquiatra de o suspeito, cada um com seus problemas e mistérios. Enquanto a policia já está pronta para encerrar o caso, Kit não está plenamente satisfeita e descobre outras pistas que indicam que a resolução não é algo tão simples assim.

Mistérios e reviravoltas mostram que o assassino pode ser alguém próximo, ao mesmo tempo em que Doll parece estar sempre próximo quando algo de ruim acontece. Ao ler sobre este homem temos um misto de sensações que vão do nojo à pena. Em certos momentos a leitura é quase sintética e eu senti como se estivesse suja e precisasse tomar um banho pra me limpar de tudo aquilo também.

No canto do cômodo entulhado, que fazia às vezes de sala de estar e cozinha, havia dois grandes ossos. Uma nuvem de moscas zumbia ao redor deles e também ao redor de uma tigela colocada no chão, cheia até a metade de comida pra cachorro gelatinosa. (Pág, 57)

A vida pessoal de Kit também está totalmente abalada, ela vai apenas deixando as coisas acontecerem e a irem levando. Levando até mesmo em direção ao quarto vermelho, lugar onde pesadelos se tornam reais.

Mistério, perseguição, estranhos telefonemas, visitas inesperadas e uma obsessão bizarra estão presentes neste livro.

FOCO SOCIAL

Uma coisa que percebi muito nesse livro foi a visão machista dos policiais. Kit sofreu um trauma e isso a abalou, é lógico, só que dai eles pouco dão atenção ao que ela tem a dizer sobre o caso. Querem dela um relatório e ponto final, quando ela não o faz, a acusam de louca. Mesmo Kit provando várias vezes que estava certa em seu raciocínio, tudo é feito para ela a contra gosto.

Eu nem sempre conseguia saber se estava levando um tapinha nos ombros ou um soco nas costelas. Se eu fosse homem talvez conseguisse distinguir a diferença. (Pág. 192)

Outro destaque dessa trama é ver a condição dos jovens. Muitos estão em situação de risco ou em conflito com a lei. Esses jovens sem pai ou proteção, com um amadurecimento rápido e forçado perdem sua inocência nas ruas.

É engraçado que para um livro arrastado, O Quarto Vermelho teve um final corrido. Não que as coisas não se expliquem, tudo fica claro. O que gostei muito foi a questão psicológica, temos analises de vários personagens na trama, o que nos faz questionar a condição humana, bem como imaginar vários suspeitos para o crime.

Vale a pena conferir!

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O Gato leu: Dois Irmãos

Dois Irmãos – Fábio Moon e Gabriel Bá (baseado no romance de Milton Hatoum)
Editora: Quadrinhos na Cia. (Companhia das Letras)
Ano: 2015
Páginas: 232
Compre: Amazon | Submarino |  Americanas | Livraria da Travessa | Cultura | Saraiva

Já faz algum tempo que este livro está na minha TBR. Eu e minha irmã acompanhamos pelas redes sociais todo o processo de realização desse trabalho pois somos fãs dos gêmeos Moon e Bá. Então, quando vimos que eles fariam a adaptação do romance de Milton Hatoum para uma graphic novel tínhamos certeza que seria incrível. E foi.

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Fazia muito tempo que eu não pegava um livro e lia do começo ao fim no mesmo dia e sem intervalos. Dois Irmãos me fez virar as páginas freneticamente e despertou um misto de sentimentos em relação aos seus personagens que são tão viscerais e reais.

O livro conta a história dos irmãos gêmeos Yaqub e Omar, descendentes de libaneses e que nasceram em Manaus. Desde muito pequenos, os gêmeos mostravam que só o que partilhavam de igual era a fisionomia. Seus desejos e ambições eram completamente diferentes, bem como a forma de se relacionar com as pessoas.

Dois Irmãos fala justamente sobre relacionamentos, ou sobre a ausência deles. A diferença de identidade entre os irmãos se reflete numa crise familiar. Sua mãe, pai e irmã, além de Domingas, empregada da família, e seu filho tem visões diferentes sobre o comportamento dos rapazes. O que é certo para um, é intolerável para o outro.

A história é narrada pelo filho da empregada que tenta entender sua própria identidade através dos dramas que testemunhou e viveu dentro de uma família que nunca foi a sua. Egos, vingança, amor, admiração e morte estão dentro desta trama que reflete também a passagem do tempo e as mudanças politicas e sociais que o Brasil viveu.

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A edição da graphic novel não é em capa dura, algo que estranhei, mas não me causou nenhum transtorno. A escolha artística de Moon e Bá pelo preto e branco foi fundamental para dar toda a carga dramática que essa história pedia. Closes e cenários deslumbrantes estão entre os maiores privilegiados destes desenhos com grande contraste e jogos de luz e sombra.

Leitura imperdível!

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O Gato leu: Pretérito Mais Que Perfeito

Pretérito Mais Que Perfeito – Otoniel Oliveira
Editora: Independente
Ano: 2015
Páginas: 72

Eu já tinha ouvido várias falas do Otoniel Oliveira e dos outros artistas sobre o projeto desta graphic novel e meio que na minha cabeça eu sentia que já sabia tudo sobre ela antes mesmo de ler. Eu não podia estar mais enganada.

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Pretérito Mais Que Perfeito é um quadrinho ousado, poético e necessário. Ele fala sobre a Belém do século XX, um pouco antes e um pouco depois deste também. São histórias que se passam em diferentes anos e épocas, mas sempre com a mesma testemunha: um banco da Praça da Republica em Belém.

Este banco é o ponto em que vemos diferentes personagens com diversos objetivos em suas vidas. Liberdade, amor, arte, politica e amizade são apenas alguns destes.

Cada conto representa um ano que foi marcante na história de Belém e na história do Brasil também, uma vez que os acontecimentos de um lugar influenciam muitas vezes no outro. Vemos uma Belém escravocrata, uma parisiense, outra militante, outra festiva, outra melancólica e por ai vai. Todas interligadas. Os contos são de apenas duas páginas e podem ser lidos de maneira independente, mas se a leitura for feita de maneira linear veremos um retrato da história recente do país, mas com a diferença de ser localizado em Belém do Pará, ao Norte dos grandes centros de hoje em dia.

Um passado. Um futuro. Uma luta constante no eterno presente.

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A Belém de Pretérito Mais Que Perfeito não é a mais bonita ou idealizada como a de muitos. A Belém deste quadrinho, desta história desenhada a muitas mãos, é a Belém de todos os dias. A cidade que amamos mas que muitas vezes nos machuca. A HQ mostra um passado que não podemos ignorar e um futuro que pode não ser bem o que imaginamos.

Este é o tipo de história que deveria estar nas bibliotecas das escolas públicas e ser sempre apresentado aos jovens leitores, principalmente aos desta terra, que já nascem com os olhos no horizonte sem antes mesmo ter visto o que está enterrado debaixo dos seus pés.

Há de se destacar também o protagonismo feminino evidente, ainda as tramas sejam vividas por homens e mulheres, é destas que vem a força e a vitalidade que liga as narrativas.

O livro foi publicado via Catarse, totalmente a partir de financiamento coletivo (a primeira HQ paraense produzida desta forma). Ele conta com o roteiro de Otoniel Oliveira e Petrônio Medeiros. As artes ficam por conta de Otoniel Oliveira, Andrei Miralha, Carlos Paul, Diogo Lima, Rafa Marc, Volney Nazareno, Emmanuel Thomaz, Adriana Abreu, Dorival Moraes e Rosiani Olívia.

Outro destaque é a trilha sonora original do projeto, pensada para a imersão na leitura da obra. Ela foi composta e arranjada originalmente pelo multi-instrumentista Leonardo Venturieri e pode ser acessada com o QR Code no inicio de cada trama.

Vale muito a pena conferir!

O Gato leu: Demolidor – A Queda de Murdock

Demolidor – A Queda de Murdock – Frank Miller e David Mazzucchelli
Editora: Salvat
Ano: 2013
Páginas: 192

Eu acho o Demolidor um dos melhores personagens da Marvel, ele é muito complexo e humano em suas atitudes. E é exatamente esse caráter humano que será o foco da graphic novel Demolidor – A Queda de Murdock.

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Na trama, Wilson Fisk , o Rei do Crime,  tem um império criminoso que seria impossível de ser contido não fosse a interferência do vigilante Demolidor, alter ego do advogado Matt Murdock. As lutas entre o Homem Sem Medo e o Rei são constantes no bairro de Hell’s Kitchen.

Certo Dia, Fisk recebe uma informação revelando a identidade secreta do herói. Para ter certeza, ele arquiteta um plano para ir afetando a vida de Murdock aos poucos, sem que este se dê conta de que seu tapete está sendo puxado.

A campanha de vingança de Fisk é contra o homem com a máscara, mas para derrubá-lo ele percebe que precisa atingir a pessoa por detrás dela. Seu objetivo é não apenas destruir o Homem sem Medo, mas todos ao seu redor. O clima não muito amigável da história se dá por seu autor, Frank Miller, que é conhecido por sua linguagem sombria.

Muitas coisas na história me lembraram a primeira temporada de Jessica Jones, série da Marvel na Netflix. Pode não ser nada, mas podem ser referências, uma vez que ambos os personagens aparecem situados no mesmo contexto muitas vezes. Ainda não assisti a segunda temporada da série do Demolidor, mas a minha irmã que viu, disse que há várias coisas que indicam que na terceira temporada veremos uma história tipo A Queda de Murdock.

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Cheio de subtramas, com um final tenso e questionador, além de surpreendente, esse encadernado com capa dura reúne as edições 227 a 233 de Daredevil. Em seus extras temos capas das revista originais norte-americanas, biografias de Miller e Mazzucchelli, a história da origem do personagem e uma galeria com diversas artes do personagem interpretadas  ao longo dos anos, pelos diferentes artistas que o desenharam.

O grande destaque dessa história é o fato dela focar no Matt, na pessoa. Um ser humano com defeitos e que apesar do bom coração pode ser arrogante, prepotente e ignorar o que acontece ao seu redor.

Se trair e ser traído, não há nada mais humano do que isso.

O Gato leu: A Procura de Vida Inteligente

A Procura de Vida Inteligente – Victor Allenspach
Editora: Edição do autor
Ano: 2015
Páginas: 196
Compre: Amazon

Já disse por aqui que, pra mim, as resenhas mais difíceis de se fazer são aquelas dos livros que gostei muito de ler. Por isso, será complicado encontrar a objetividade necessária para a resenha de A Procura de Vida Inteligente, que considero umas das melhores leituras que fiz até agora neste ano.

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Quando o autor Victor Allenspach entrou em contato comigo dizendo que queria me enviar um exemplar para leitura eu fiquei curiosa. Ele me contou que seu livro tem forte influencia de Douglas Adams e me lembrei de que eu não me apaixonei pelo O Guia do Mochileiro das Galáxias, primeiro livro da série escrita por Adams e único que li até hoje. Algo que tinha essa referência poderia ser uma leitura que não me agradasse.

Ter opinião sobre as coisas é algo confuso, um mistério subjetivo. (Pág. 07)

Isso não aconteceu. Encontro referencias à escrita do autor, mas Victor tem uma narrativa própria. A Procura de Vida Inteligente é um livro com uma história de ficção científica muito acessível. Ainda que a forma de narrar de maneira não linear possa não agradar todos, ela é um dos pontos fortes dessa história.

É um livro com uma escrita sarcástica, irônica e muitas vezes agressiva por nos dizer coisas que não queremos ouvir e não queremos aceitar. Parece que a leitura não se encerra na ultima página, uma nova reflexão surge a cada nova experiência que vivemos e as palavras adquirem outros significados.

“A dor desperta suas emoções, e sente-se humano novamente. Não é mais controlado, e por isso se revolta, mas ironicamente a responsabilidade por suas próprias decisões desperta a sua razão. (Pág. 36)

Na trama, sem motivo ou explicação, uma mensagem surge diante de todos os seres do universo. O fim dos tempos é anunciado. Esta é uma mensagem tão carregada de significado para Boris.

Boris é um robô sem memória. Ele não nasceu. Também não foi criado ou educado. Como tantos outros, ele apenas foi produzido e programado. Assim, ele pode não morrer da maneira como a raça humana entende, mas ele está sempre diante do risco da reciclagem e do fim que esta representa. Ser ultrapassado e considerado inútil é uma realidade que se torna comum até para aqueles feitos de partes mecânicas.

Em que isso difere da própria existência humana? Em nada.

Num instante tudo faz sentido. Não o universo, a física ou as questões existenciais, mas tudo o que precisa fazer. (Pág. 105)

De figurante a protagonista, séculos se passam à espera de uma oportunidade. Na busca por liberdade, Boris sequer imagina que já a alcançou a muito tempo, mas optou por uma existência cheia de limites e algum significado.

A necessidade de dizer alguma coisa é bastante estranha, para não dizer humana. (Pág. 160)

Através desse robô vemos uma reflexão sobre a humanidade. Criação, leis, relacionamentos, perdas, vida e morte. A iminência de um destino que foi calculado e que não pode ser evitado. Boris somos nós nesse ambiente hostil que é a vida.

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