O Gato leu: Luz, O deus do horror

Luz, O deus do horror – Andrei Simões
Editora: Twee Editora
Ano: 2016
Páginas: 224
Compre: site da editora

Como achar palavras pra descrever o trabalho de Andrei Simões? É difícil.

Talvez bastasse dizer que desde que li Putrefação, seu primeiro livro impresso, decidi que quero ser cremada e nunca enterrada em um caixão. Não é bobagem, ele é um livro que me marcou, me traumatizou. É uma história que ainda está viva dentro de mim.

6on6 - Outubro - 2016 - GatoQueFlutua - Foto - Debb Cabral

Minhas expectativas para Luz, O deus do horror não eram pequenas. Andrei é um escritor de horror e realismo mágico, além de um profundo pesquisador da área. Basta uma conversa com ele e você vai notar as diversas referências em sua fala.

Quando comecei a ler, pensei que Luz seria bem mais tranquilo (e menos traumatizante) do que foi o Putrefação. Grande engano. Diversas vezes, ao fechar os olhos para dormir, a história insistia em morar em meus pensamentos e se alimentar dos meus medos.

Experiência nada mais é do que tolerância à dor e maturidade é simplesmente não se importar a ponto de não doer mais ou pior, acostumar-se a apanhar. (Pág. 133)

Na história, um jovem atormentado do pela morte do irmão está em uma jornada de vingança que vai além das fronteiras do absurdo. Ele conta com a ajuda de uma amiga simplesmente em busca de justiça.

Luz é um romance seriado, onde cada capítulo encerra uma história, escrita ora nos moldes do terror minimalista e filosófico, ora no antimolde da subversão de gênero. Porém, conforme avançamos as histórias, percebemos que apenas uma é contada, que une, interliga todas as outras.

… todos nós, apenas gado no pasto, esperando o momento do abate. (Pág. 137)

São histórias que nos apresentam seres de existência impossível, na forma de anjos, que semeiam e colhem medo, para uma poderosa entidade que reside na mais profunda escuridão. A morte do irmão do jovem nada mais é do que uma pequena parte da mostra do controle que o deus do medo exerce sobre a humanidade. Este é um livro para irmos além de nossas crenças.

Talvez a verdade não signifique felicidade. E quem foi que disse que um deus poderoso é um deus bom? Não há benevolência no poder. Não há bondade naquele para o qual somos apenas joguetes. Inclusive, me assusta (mas não deveria), ver a prontidão com que o ser humano aceita as ofertas sombrias e a preço de sangue que lhes são oferecidas.

… o amante da vida descobrira que a morte é apenas uma benção diante do mundo amaldiçoado pelo deus do pavor. (Pág. 144)

Comecei a ler e até o sexto conto estava achando tudo tranquilo (na medida do possível para uma trama que já começa com o assassinato de uma criança), mas dai em diante, toda a amarração desta realidade aterradora que o Andrei criou começou a tomar forma com força total. Paranóia, insanidade, desilusão.

Se em Putrefação fiquei com um trauma, Luz me fez ficar com o pé atrás ao me deparar com bonecas, noivas, insetos, palhaços e outras atrocidades da vida cotidiana.

Fiquei imaginado ler esse livro para uma criança, pois cada conto se encerra como uma história bem assustadora. Com certeza acabaria em choro. Mas como adulta, lendo o livro é possível ver toda a filosofia por tras. À primeira vista temos o pavor, ao olhar com mais atenção temos uma reflexão profunda sobre a vida e a morte. Quem duvida que ao final dela não acabaremos chorando também?

Em seus braços, não havia como matá-lo, pois ao ter olhado para o abismo, o abismo olhou para ele. (Pág. 171)

Luz, O deus do horror é o terceiro volume das “Crônicas da Não-existência”, que começou com Putrefação e Zon, o rei do nada (este ainda tenho que conferir). Dá pra ler o primeiro capítulo no site da Twee.

Não há esperança. Vinde a mim e morra.

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2 comentários Adicione o seu
  1. Eu sou uma alucinada por histórias de terror. Muito embora eu morra de medo. Mas vai entender, vai ver eu gosto de sentir medo! haha
    Eu já quero ser cremada por mil coisas que penso justamente sobre o tema putrefação. Imagina então ler o livro! Acho que vou pular o primeiro! hahaha
    Mas me interessei por esse da Luz. Pelo que percebi, apesar de uma série, não precisa ler todos, certo? (vc não leu o segundo, foi isso?).
    Já vou até colocar na minha lista de “quero ler” do Skoob para não esquecer!!!

    1. Você vai amar a escrita do Andrei, é como se aquilo tudo sempre estivesse na tua cabeça, sabe? Não te abandona hahaha
      Não precisa ler na ordem não, eu não li o segundo ainda. Os livros funcionam separados e tem histórias que se encerram neles. Dá pra ler tranquilamente.
      O autor contou pra mim que vão ser cinco livros ao todo e eles formarão também uma grande história.

      É muito material pra pesadelo hahaha

      Beijão e obrigada pela visita!

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